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Ao dizermos:
«Lisboa é a capital de Portugal»
«A poluição ameaça o equilíbrio ecológico»
«Portugal tem a maior taxa de mortalidade infantil da Comunidade Europeia»
estamos a proferir afirmações acerca de algo que existe, que pode ser verificado e que, portanto, é susceptível de aceitação universal. Afirmações deste tipo, capazes de traduzir a realidade, sem acrescentar nenhum comentário ou opinião negativa ou positiva, designam-se por juízos de existência, de realidade ou de facto.
O mundo como realidade de facto é o real constituído por tudo o que é susceptível de ser descrito externa e objectivamente.
Mas se o mundo fosse encarado apenas desta maneira, ele seria reduzido a uma fria imensidão de seres materiais, de indivíduos, de situações concretas, em face dos quais permaneceríamos alheados e indiferentes. Não é isto que acontece. (Só faz sentido falar em valor, na medida em que não somos indiferentes à realidade que nos rodeia)
A constatação de que em Portugal a mortalidade infantil é superior à verificada nos outros países da Europa não nos permite ficar indiferentes. Também a tomada de consciência de que a poluição põe em risco as espécies vivas não nos deixa ficar neutros.
O que acaba de ser dito significa que o homem não se contenta com uma perspectiva coisificada da existência. Tal perspectiva, meramente informativa ou descritiva, é para nós insuficiente.
As coisas deixam de ser o que são e passam a ser à escala humana. Como diz Nietzsche, “foi o homem que deu às coisas o seu valor; foi ele que lhes deu um sentido, um sentido humano.” De facto, tudo nos surge como algo desejável ou indesejável, como algo atractivo ou repelente.
A não indiferença perante o mundo implica que a nossa vida não signifique somente viver e contemplar passivamente, mas antes agir[2] e participar, comprometermo-nos de acordo com preferências, desejando e repudiando em função de valores que, de uma forma geral, são sentidos por nós como algo de bom ou de mau[3].
Duas importantes características dos valores
- Os valores são bipolares
Todos nos sentimos atraídos pelo bem, pela verdade, pelo amor, pela justiça. Estes termos referem-se a valores que encontram o seu contrário no mal, na falsidade, no ódio e na injustiça. Os primeiros são valores positivos, os segundos são valores negativos (ou desvalores).
A bipolaridade é a propriedade que os valores apresentam de existirem sempre em pares opostos.
Exemplos de valores:
VALORES ÚTEIS:
capaz - incapaz
caro – barato
abundante – escasso
necessário – supérfluo
VALORES VITAIS:
são – doente
enérgico - inerte
forte - débil
VALORES ESPIRITUAIS:
Intelectuais (conhecimento – erro; exacto – aproximado; evidente – provável)
Morais (bom – mau; bondoso – maldoso; justo – injusto; escrupuloso – desleixado; leal – desleal)
Estéticos (belo –feio; gracioso – tosco; elegante – deselegante; harmonioso – desarmonioso)
VALORES RELIGIOSOS:
sagrado – profano
divino - demoníaco
- Os valores são hierarquizáveis[4]
Cada sujeito, nas mais diversas circunstâncias, conduz-se por uma escala hierarquizada de valores que o leva pessoalmente a preferir isto àquilo, a realizar este acto em vez daquele.
Sempre que tem de deliberar, o sujeito encontra-se perante várias ordens de valores. Tem então, antes de agir, de se decidir relativamente ao que quer fazer. Terá que escolher, por exemplo, entre o prazer sensível, a realização espiritual, o lucro,, a valorização profissional, a justiça, etc. Uma vez decidido, a sua acção terá implícita, prioritariamente, uma dimensão económica, ou estética, ou ética, ou política, ou religiosa, …, que lhe é conferida pela ordem de valores preferidos.
Deste modo, os valores apresentam-se com valências diferentes, o que permite colocá-los numa escala hierarquizada de preferências. Quando falamos em hierarquia de valores, isto significa, antes de mais, que os valores se subordinam uns aos outros, em função da valiosidade que cada um tem para nós.
Cada pessoa pode estabelecer a sua própria escala de valores. Isto significa que os valores estão na dependência do sujeito que tem a possibilidade de os colocar hierarquicamente para regular a sua acção. Para além disso, também pode significar que o sujeito deve ser responsável pelas opções tomadas.
Nota
Alguns autores (por exemplo, Ch. Perelman) distinguem valores abstractos de valores concretos.
Os valores abstractos aplicam-se a princípios gerais, válidos para todos os casos (como por exemplo, a Beleza, a Liberdade, a Verdade, a Igualdade, ou a Justiça Social). Os valores concretos referem-se a um objecto, a um ser, a uma instituição ou a um grupo: uma empresa, uma nação, um clube a que pertencemos, são exemplos de valores concretos.
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[1] Consideremos as seguintes afirmações: “Este edifício é do século passado” e “Este edifício é bonito”. A primeira traduz um juízo de facto e a segunda um juízo de valor.
[2] A acção humana implica a existência de valores.
[3] À experiência das pessoas e dos acontecimentos, acrescentamos os sentimentos da preferência ou da rejeição, da aprovação ou da condenação. Aos discursos dos factos preferimos os enunciados ou juízos de valor. Ao enunciado meramente constatativos que diria “Dezenas de timorenses foram mortos no cemitério de Santa Cruz”, preferimos e antecipamos esse outro que diz: “É inteiramente incompreensível e condenável o massacre de dezenas de timorenses no cemitério de Santa Cruz.”
[4] Os valores organizam-se num sistema coerente e hierarquizado, isto é, situam-se em planos diferentes uns em relação aos outros, formando uma “tábua de valores”. Assim, quando alguém opta por uma carreira artística que o seduz e sabe de antemão ser mal remunerada, fá-lo de acordo com uma tábua de valores que coloca a realização pessoal acima da riqueza material.