Pages de Philosophie.
BEM VINDOS
A especificidade da Filosofia (ficha de estudo)
1.
A necessidade de "pensar por si mesmo" (autonomia) como exigência fundamental da atitude filosófica.
Leia atentamente o seguinte texto:
"Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; (...) pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles foram meus, não seus. (...)
Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence."
Agostinho da Silva
- Discuta o peso dos preconceitos e das "ideias feitas" nos conteúdos do pensamento humano.
"Esclarecimento (ou Ilustração) é a saída do homem da sua menoridade, da qual ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de fazer uso do seu entendimento sem a direcção de outro indivíduo. O homem é o próprio culpado dessa menoridade se a causa dela não se encontra na falta de entendimento, mas na falta de decisão e coragem de servir-se de si mesmo sem a direcção de outrem.(...)
A preguiça e a covardia são as causas pelas quais uma tão grande parte dos homens continuem de bom grado menores durante toda a vida. São também as causas que explicam por que é tão fácil que os outros se constituam em tutores deles. É tão cómodo ser menor. Se tenho um livro que faz as vezes do meu entendimento, um director espiritual que por mim tem consciência(...), etc., então não preciso de esforçar-me eu mesmo. Não tenho necessidade de pensar, quando posso simplesmente pagar; outros se encarregarão em meu lugar dos negócios desagradáveis. A imensa maioria da humanidade considera a passagem à maioridade difícil e além do mais perigosa, porque aqueles tutores de bom grado tomaram a seu cargo a supervisão dela. Depois de terem primeiramente embrutecido o seu gado doméstico e preservado cuidadosamente estas tranquilas criaturas a fim de não ousarem dar um passo fora do carrinho para aprender a andar, mostram-lhes em seguida o perigo que as ameaça se tentarem andar sozinhas. Ora, este perigo na verdade não é tão grande, pois aprenderiam muito bem a andar finalmente, depois de algumas quedas."
Kant
- Destaque um pequeno excerto do texto e justifique/esclareça a sua escolha.
- Relacione o "pensar por si mesmo" com a dignidade e direitos do homem.
2.
A radicalidade da Filosofia.
Ao afirmar-se que a Filosofia se caracteriza pela radicalidade das suas posições ou explicações, pre-tende-se dizer que a Filosofia quer dar conta dos fundamentos, das razões de ser últimas, dos princípios, das causas primeiras de qualquer realidade particular e até da realidade em geral. Dito por outras palavras, a radicalidade da Filosofia implica que, em circunstância alguma, a Filosofia pode admitir como certa, verdadeira ou inquestionável coisa alguma, antes de criticamente a justificar e fundamentar.
Importância da dúvida Duvidando rompemos a falsa certeza e avançamos, de interrogação em interrogação, no sentido de uma maior clareza.
"Existe, acaso, qualquer conhecimento tão certo, que nenhum homem razoável possa dele duvidar? (...) Afigura-se-me que neste momento me encontro sentado numa cadeira, junto de uma mesa de certa for-ma, sobre a qual vejo folhas de papel, com letras de imprensa ou manuscritas. Voltando a cabeça, para além de uma janela vejo casas, e nuvens, e o Sol. Torna-se isto tão evidente que nem vale a pena enunciá-lo, excepto em resposta a quem duvide que eu conheça seja o que for. E no entanto, de tudo isso se pode razoavelmente duvidar, tudo exige discussão cuidadosa, antes de chegarmos à convicção de que o enunciámos de forma verídica, completamente verdadeira.(...)
Deparamos aqui com o começo de uma distinção das que mais enleiam na Filosofia: a destrinça entre "aparência " e "realidade", entre o que as coisas parecem ser e o que as coisas realmente são."
B. Russell
- Esclareça a seguinte frase:
"É pela dúvida que a Filosofia concebe, é a dúvida que a torna fecunda."
A. de Quental
"Lá mesmo, onde todo o mundo está instalado, dentro do óbvio (…), o filósofo é aquele que chega e, com toda a espécie de perguntas engraçadas, dá uma sacudidela e faz ver que nada é óbvio, e que tudo é realmente de pasmar! Nada escapa ao seu questionamento: nem Deus, nem o ser humano e as suas institui-ções, nem as ciências, os seus métodos e resultados, (…). Filosofia é "saber de todas as coisas" e é saber crí-tico. Nem ela própria pode escapar ao seu questionamento e à sua crítica.
Ora, numa sociedade em que as explicações estão todas prontas, onde as normas são aceites sem discussão, a tendência é estagnar. As alterações, inevitáveis em qualquer comunidade humana, ficam por conta de factores externos: mudanças climáticas, cataclismos, guerras, invasões, (...) Mas, onde há questionamento de tudo (…) existe a permanente possibilidade da mudança."
Maria Iglésias
- Comente a seguinte afirmação:
" Uma grande Filosofia não é a que instala uma verdade definitiva, mas a que introduz uma inquietação."
Péguy
3.
A dimensão comunicacional e intersubjectiva da atitude filosófica.
A Filosofia procura ser universal porque, se cada pessoa é única, ninguém vive sozinho, e o saber só ganha sentido quando comunicado/partilhado.
Tente comentar o seguinte texto:
"Para que o diálogo seja profundo com vista ao encontro de pensamentos, devemos começar por pôr entre parêntesis, pelo menos provisoriamente, as concepções a que estamos habituados. (...) libertando-me dos meus hábitos de pensar, liberto-me para o pensamento do outro e também para um pensamento meu, mais pessoal. "
A. Dondeyne
Devemos confrontar os nossos próprios pensamentos/juízos com os dos outros. Pensar (e filosofar) não é um acto solitário, mas um acto de comunhão, de comunicação com os outros. Supõe a comunidade e gera a comunidade. Kant perguntava: "Pensaríamos bem, pensaríamos sequer se não pensássemos com os outros?"
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