Jeudi 20 octobre 4 20 /10 /Oct 11:50

 

chirico12

 

APONTAMENTOS

 "O domínio da argumentação é o do verosímil, do plausível, do provável, (...)"

C. Perelman e L. Olbrechts-Tyteca

 

"A argumentação define-se como um conjunto de processos oratórios realizados para fazer admitir uma tese. Visa obter a adesão dos espíritos daqueles a quem se dirige. Enquanto que a demonstração possui em si mesma evidência e necessidade, a argumentação refere-se ao verosímil e opera tendo em vista um auditório."

J. Russ

 

"(...) nos domínios em que se trata de estabelecer aquilo que é preferível, o que é aceitável e razoável, os raciocínios não são nem deduções correctas nem induções do particular para o geral, mas argumentações de toda a espécie, visando ganhar a adesão dos espíritos às teses que se apresentam ao seu assentimento. "

C. Perelman

A argumentação produz-se em torno de temas-problemas sobre os quais recai a dúvida, sobre os quais não se verifica consenso ou unanimidade, ou sobre os quais é possível defender a posição A e a sua contrária B, havendo razões ou argumentos para sustentar tanto uma quanto a outra. Não discutimos, obviamente, sobre a verdade de afirmações do tipo: "o todo é maior do que a parte"; 2+3=5; o triângulo tem três ângulos".

De facto, a maior parte dos problemas com que nos debatemos no dia-a-dia, assim como as grandes questões com que se defronta a humanidade, recaem justamente sobre o incerto, o discutível, o previsível, o viável. Os grandes debates da actualidade sobre a pena de morte, a engenharia genética, o ambiente, a energia nuclear, o aborto, a eutanásia, a bioética, a governação, a inflação, o desemprego e a concertação social, o funcionamento das instituições, a educação, a cultura, etc., relevam a necessidade da comunicação e da argumentação entre os seres humanos para encontrar as respostas mais adequadas e as soluções mais proveitosas.

Conclusão. O discurso racional pode orientar-se numa dupla dimensão: a da demonstração ou a da argumentação, consoante se visa uma verdade universal e necessária ou uma verdade relativa e plausível. A primeira via é a da lógica; a segunda é a da retórica[1].

A argumentação não pode esquecer o contexto em que decorre, pois, como é óbvio, se se pretende exercer uma acção ou influência sobre o auditório, não se pode adoptar uma atitude impessoal, de distância ou de frieza. Se isso acontece, os destinatários da argumentação comentam: "isso pode ser verdade, mas não me toca" ou "reconheço que pode ter razão, mas ainda não estou convencido" ou "há qualquer coisa que falta para eu me decidir".

A racionalidade retórica ou argumentativa tem em conta a pertinência, a sensatez, a oportunidade, a ocasião adequada e o ambiente propício para pronunciar um discurso, propor uma opinião ou encetar uma discussão.

"Enquanto um sistema dedutivo se apresenta como isolado de todo o contexto, uma argumentação é necessariamente situada. Para ser eficaz, esta exige um contacto entre sujeitos. É necessário que o orador (aquele que apresenta a argumentação oralmente ou por escrito) queira exercer mediante o seu discurso uma acção sobre o auditório[2], isto é, sobre o conjunto daqueles que se propõe influenciar. Por outro lado, é necessário que os auditores estejam dispostos a  sofrer a acção do orador, e isto a propósito de uma questão determinada."

C. Perelman

"O homem eloquente deve sobretudo fazer prova de sagacidade que lhe permita  adaptar-se às circunstâncias particulares do momento e às pessoas. Penso, com efeito, que não devemos falar sempre, diante de todos, contra todos, a favor de todos, nem a todos da mesma maneira. Só será eloquente quem for capaz de adaptar a linguagem ao que convém em cada caso."

Cícero

 

A argumentação "é uma técnica da discussão com vista a convencer um adversário ou a refutá-lo[3] e a estabelecer com ele um acordo sobre a legitimidade da discussão" (P. Ricoeur). A argumentação implica, assim, que se renuncie a relações de força, isto é, a excluir as ordens. Não se dão ordens a quem queremos convencer. Se queremos captar a adesão dos destinatários, então temos que ter em conta as suas reacções, isto é, o discurso argumentativo tem que ser maleável, tem que se adaptar ao teor dessas reacções para que se possa manter uma espécie de "corrente de simpatia" entre o emissor e os destinatários.

Podemos considerar que a competência argumentativa se define, não só como a arte de argumentar eloquentemente, mas essencialmente como a capacidade de dialogar. Neste sentido, a competência argumentativa remete para uma atitude de abertura em relação aos outros; mostrar-se disponível para falar e influenciar / ouvir e ser influenciado, o que implica que os interlocutores se apresentem de igual para igual, no que diz respeito ao direito de cada um em aderir ou resistir aos argumentos do outro.

Argumentar é, assim, aceitar o desafio e o risco de falhar no controlo das crenças e condutas de outrem. O orador quer controlar, mas aceita sujeitar-se a ver esse controlo limitado pela contra-argumentação do seu interlocutor; por sua vez, este assume o risco de ter de alterar a sua convicção e/ou o seu comportamento, em função da capacidade de persuasão dos argumentos que lhe são dirigidos.

"Querer persuadir um auditório significa, antes de mais, reconhecer-lhe as capacidades e as qualidades de um ser com o qual a comunicação é possível e, em seguida, renunciar a dar-lhe ordens que exprimam uma simples relação de força, mas sim procurar ganhar a sua adesão intelectual. (...) O discurso argumentativo não é um monólogo onde não existe qualquer preocupação em relação aos outros. O que vaticina sem se preocupar com o auditório assemelha-se  a um alienado, estranho ao mundo e à sociedade (...). De facto, querer persuadir alguém é, à partida, não partir do princípio que tudo o que irá dizer é aceite como a "palavra do Evangelho".

A argumentação é essencialmente comunicação, diálogo, discussão. A argumentação necessita que se estabeleça um contacto entre o orador que deseja convencer e o auditório disposto a escutar. E isto é verdadeiro, mesmo no caso de uma deliberação íntima, de que não se pode compreender o desenvolvimento senão desdobrando a pessoa que delibera em orador e auditório."

C. Perelman

A argumentação usa a linguagem comum e, de preferência, adaptada ao nível de língua dos receptores ou auditores. Não se pode obter adesão de ninguém usando uma linguagem incompreensível ou demasiado densa. Só com uma linguagem que seja "familiar" aos receptores é que estes podem ser convencidos a aceitar uma determinada tese.

A retórica e a racionalidade argumentativa estão associadas a formas sociais de liberdade de pensamento e de expressão da própria opinião, ou seja, estão associados a regimes de democracia.

 

Que significa a intenção de persuadir um auditório?

Significa:

- reconhecer-lhe a capacidade de comunicar;

- reconhecer-lhe o direito de aceitar ou de recusar a tese que se pretende "impor-lhe";

- renunciar a dar-lhe ordens que exprimam uma relação de força (renunciar ao uso da violência);

- aceitar o desafio (e o risco) de tentar ganhar a sua adesão intelectual, através da força dos argumentos usados.

Conclusão

Argumentar (e contra-argumentar ou refutar) implica e exige:

- tolerância

- generosidade intelectual

- respeito pelo outro e pela sua opinião

- reconhecimento (a nós mesmos e aos outros) do direito e do dever de ter convicções, mas não a obrigatoriedade de estar definitiva e necessariamente presos a elas, e do direito e do dever de as modificar e transformar.

 

…/…



[1] O processo argumentativo é também um processo racional; a Lógica não possui a exclusividade da racionalidade. O acto de argumentar é também um acto de razão, de pensamento e de discurso.

[2] Auditório: conjunto daqueles a quem se dirige a argumentação e que se pretende influenciar. É em função do auditório que se desenvolve toda a argumentação. A retórica coloca-se no ponto de vista do auditório e do efeito do discurso. Interessa a empatia do orador com o auditório, a comunicação, obter a adesão. Para a retórica, o auditório é tido em conta pelo orador na escolha do tema, na selecção dos argumentos, no estilo do próprio discurso.

[3] Refutação: consiste em infirmar a tese do adversário a partir do recurso a contra-exemplos, mostrando que dessa tese se podem concluir resultados falsos ou absurdos ou que ela contraria princípios estabelecidos e admitidos por todos.

 

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